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História e analogia

A extrapolação histórica implica o pensamento por analogia, mas este exercício não se reduz a operações lógico-formais. São necessárias operações valorativas, para tentar encontrar e valorar as semelhanças e dissemelhanças. E porquê? Porque, ao contrário do que sucede com as leis naturais, o comportamento humano é regido por falsas leis naturais, na medida em que admitem todas as exceções. A concatenação de uma cadeia de inferências não poderá jamais alcançar a robustez das ciências naturais. A água ferve a 100º C. Que atitude humana obedece a tais automatismos?

Da relação entre a imagem e a impressão intelectual

A imagem condiciona até a impressão intelectual. Hoje, pensando sobre a personagem que se apresenta como Noam Chomsky é difícil conciliar a vulnerabilidade física que observamos com a personalidade intransigente e intelectualmente arrogante que emerge do discurso. Parece existir uma qualquer dissonância entre o corrente invólucro de modesto ancião e o espírito autocrático e jacobino que, com intolerante violência moralista e um gélido fervor de inspiração proto religiosa, invariavelmente reduz a dissensão ao opróbrio. Deparei-me hoje, por mero acaso, com uma fotografia da juventude e eis que, nessa imagem, a impressão de dissonância está ausente. A pose segura e a forma quase displicente como segura o cachimbo enquanto, aparentemente perdido em profundíssimas reflexões, se deixa fotografar evidencia uma vaidade pessoal que a idade hoje oculta, permanecendo apenas a nervosa rigidez que faz parelha com aquela sua estranha forma de ortodoxia intelectual.

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A História como Astrologia

A analogia histórica nada acrescenta à adivinhação do futuro. Todos os tempos históricos são comparáveis ao presente; em todas as eras, com alguma criatividade, encontramos semelhanças e identidades. A ubiquidade da parecença é, pois, tamanha que inviabiliza a analogia como fonte de revelação de conhecimento novo.

De alguma forma, a comparação histórica é semelhante ao esquiço psicológico dos signos astrológicos, que nos parecem sempre tão adequados, tão estranhamente íntimos, até que, por descuido, trocamos as etiquetas e notamos, com espanto, que também o perfil de Leão se aplica a este Peixes e o de Sagitário àquele Escorpião. Cada modelo contém o seu quê de humano, permitindo que todos encontrem identificação. O mesmo sucede com os tempos históricos. Escolha-se um tempo e o investigador diligente encontrará analogia intrigante, paralelos bizarros, simetrias de espanto…

A tentativa de prever o futuro extrapolando a partir da experiência da história é, por conseguinte, uma “ciência” paralela à astrologia, dizendo a cada um dos seus praticantes precisamente aquilo que deseja escutar. Assim sucede, como é sabido, com a astrologia, com os seus perfis e predições, infinitamente permutáveis já que sempre enunciados em termos suficientemente vagos que permitem

No passado, com algum esforço e capacidade retórica na exposição, encontramos tudo quanto baste para justificar um qualquer prognóstico ou, se mudarmos de sentimento, um outro de sentido oposto.

 

A Mente Medieval: imagética e simbolismo

Em defesa do direito a retratar o divino, Gregório Magno [São Gregório I, Doutor da Igreja, c. 540 Roma-604, o Papa (entre 590 a 604) associado ao Canto Gregoriano], escreve a Serenus, Bispo de Marselha:

«(…) For indeed it had been reported to us that, inflamed with inconsiderate zeal, you had broken images of saints, as though under the plea that they ought not to be adored . And indeed in that you forbade them to be adored, we altogether praise you; but we blame you for having 800px-westminster_cathedral_non_angli_sed_angeli_si_christianibroken them. Say, brother, what priest has ever been heard of as doing what you have done? If nothing else, should not even this thought have restrained you, so as not to despise other brethren, supposing yourself only to be holy and wise? For to adore a picture is one thing, but to learn through the story of a picture what is to be adored is another. For what writing presents to readers, this a picture presents to the unlearned who behold, since in it even the ignorant see what they ought to follow; in it the illiterate read. Hence, and chiefly to the nations , a picture is instead of reading.

(…) And then, with regard to the pictorial representations which had been made for the edification of an unlearned people in order that, though ignorant of letters, they might by turning their eyes to the story itself learn what had been done, it must be added that, because you had seen these come to be adored, you had been so moved as to order them to be broken. (…)»

De alguma forma, a mente medieval, imagética e simbólica, terá sido informada por esta ideia de que a imagem encapsula significado para as massas iletradas incapazes de aceder ao conhecimento por via da palavra escrita. Na atualidade, as massas fundamentalmente letradas, mas incapazes de devotar mais que um punhado de minutos a um qualquer assunto, encontram na imagem, nos memes e na caricatura, a sua narrativa do mundo, refugiando-se da desorientante complexidade contemporânea na superficialidade efémera e reconfortante da imagem. Eis que, num ápice, percebemos (ou convencemo-nos que percebemos)… Uma vez mais, a narrativa é dominada por criadores de bonecos que contam uma história ao povo.

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Source. Translated by James Barmby. From Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, Vol. 13. Edited by Philip Schaff and Henry Wace. (Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1898.) Revised and edited for New Advent by Kevin Knight. <http://www.newadvent.org/fathers/360211013.htm&gt;.~

Palavras e violência: quando acreditar que o discurso se tornará ação?

A partir de 1414, na sequência do Debate de Tortosa, o número de judeus convertidos ao cristianismo cresce em Espanha. E, no entanto, rabinos como Yahuda ibn Verga cedo enunciaram, com lucidez presciente, os perigos futuros. Alguns convertidos seriam despojados dos seus bens e finalmente mortos se ficassem em Espanha; outros, só depois de roubados aceitariam a necessidade de fugir e, dessa forma, salvariam, pelo menos, os corpos. Assim, apenas uma terceira categoria, a dos que abandonassem Espanha imediatamente, poderia salvar bens e corpos. O postulado da salvação era, por conseguinte, a aceitação de que o discurso católico, eivado de ameaças sangrentas, redundaria em ação. Anos mais tarde, em Fevereiro de 1483, a Inquisição Espanhola (substituindo a instituição papal), sob a égide do frade dominicano Tomás de Torquemada, viria a institucionalizar de forma sangrenta a perseguição, até aí relativamente espontânea e popular, aos judeus e convertidos, queimando e torturando dezenas de milhares de pessoas, sobretudo nos anos que precederam a traumática expulsão de 1492.

No século XX, os judeus alemães e austríacos, no período entre as guerras, confrontados com a violentíssima propaganda antissemita nazi, tiveram, também eles, de se debater com a cruel dúvida. Manter-se-ia o discurso apenas como palavra, catarse retórica para as frustrações da época? Como sabemos, salvaram-se sobretudo os que cedo perceberam que a palavra presente seria violência futura.

Porquê que apenas alguns lograram realizar tal salto de fé?

Perante um quotidiano estável, a consciência ajusta-se com dificuldade à ideia de que as coisas se podem alterar. O anúncio da mudança por meras palavras ou ações menores que o futuro classificará de proféticas, dificilmente merece confiança. Um artigo é publicado no jornal, um discurso é pronunciado, uma parede vandalizada, mas o dia seguinte amanhece da mesmíssima forma, com o Sol surgindo a Leste e os sons de sempre ecoando familiarmente na rua. Como é possível acreditar que as palavras de ontem serão, talvez a meio da tarde, o tacão da bota que nos esmagará?

 

Time present and time past

Are both perhaps present in time future,

And time future contained in time past.

If all time is eternally present

All time is unredeemable.

What might have been is an abstraction

Remaining a perpetual possibility

Only in a world of speculation.

What might have been and what has been

Point to one end, which is always present.

Footfalls echo in the memory

Down the passage which we did not take

Towards the door we never opened

Into the rose-garden.

My words echo

Thus, in your mind.

But to what purpose

Disturbing the dust on a bowl of rose-leaves

I do not know.

T.S. Elliot, Burnt Norton

Estado e religião: tendências recentes no caso de Israel

Na sua coluna de 27 de Fevereiro de 2016, Uri Avnery, o jornalista e intelectual israelita, define com grande precisão a forma como a religião pode corroer o estado de direito. Não uma constatação original, note-se o paralelismo entre a recente evolução das relações entre poder secular e religião em Israel e a ordem jurídica e política da maioria dos estados islâmicos.

Transcrevo um trecho com particular interesse:

(…)

«In the last few months Netanyahu has appointed new people to several of the most important government functions. The police chief is the least of them. One is the Attorney General (called “Legal Adviser to the government”), the most important government official, with vast powers. Another is the new chief of the Shin Bet. Unlike any of their predecessors, they all wear kippot.

To explain the significance of this, one has to understand the Jewish religion. It is quite unlike, say, the Christian religion, and far closer to Islam. All talk about “Judeo-Christian” tradition is based on ignorance.

THE HEBREW word for religion is “dat”. Like the Arab equivalent “din”, it basically means “law”. Judaism is a set of commandments (613 in the Bible alone) imposed by God. In return, God has “chosen” us as “His” people and “given” us the Holy Land. One cannot be a Jew without belonging to the Jewish people, which owns the Holy Land forever.

For 2000 years and more, Jews were dispersed throughout the world. Their attachment to the Holy Land was purely spiritual. The Jewish people was a religious concept.

Then came Zionism. It was invented at the end of the 19th century. Almost all its creators were devoutly atheist. They did not believe in a God who had “exiled” the Jews.

When I was young, nobody in this country spoke about a “Jewish State”. We spoke about a “Hebrew State”. An extreme fringe group (nicknamed “Canaanites”) even asserted that we are a new Hebrew Nation which has nothing to do with Judaism. Most of my generation thought along the same lines, though not quite with these words.

I am often asked why a determined militarist like David Ben-Gurion, the first Prime Minister and Minister of Defense, exempted religious pupils from military duty. My explanation is quite simple: like most of us, he believed that the Jewish religion in this country was dying out. Zionism had supplanted it. The new Hebrew pioneer did not need all that religious nonsense.

Then came the war of 1967, the “miraculous” victory, the conquest of all the country up to the Jordan River, with all its holy places. Far from dying, the Jewish religion suddenly sprang to new life. Now it is expanding rapidly, kippot can be seen everywhere. Especially among the settlers.

This rejuvenated religion is closely connected with an extreme right-wing, ultra-nationalist, Arab-hating ideology. This is the wave on which Netanyahu, a non-religious, non-kosher-eating super-nationalist opportunist, is riding now. Practically every day – literally – new nationalist-religious laws and bills pop up.

One bill says that in case of doubt, judges must “consult” Jewish law (the “Halacha”). This ancient law, some of it 2500 years old, treats women as inferior and condemns gays to stoning. It has nothing to do with modern life. Another bill allows the Knesset majority to eject from Parliament elected members who do not recognize the state as “Jewish and democratic” (which may sound like an oxymoron). School textbooks in secular schools are given a religious overtone (but are not yet burnt). Independent-minded teachers are dismissed. The Minister of Education wears, of course, a kippah. Six members of the prestigious Council for Higher Education have resigned because of the government’s effort to stuff that august body with nationalist and religious agitators.»

Falsas certezas e falsa confirmação

Se entendermos enviesamento como a distorção entre aquilo que “vemos” ou “apreendemos” e aquilo que realmente existe, é fácil perceber como a validade operativa da análise (no sentidos cartesiano de decomposição do tópico complexo nos seus elementos mais básicos, de modo a potenciar a compreensão da génese, estrutura, intenção e relações daquele) depende dum policiamento eficaz às falhas epistemológicas do nosso próprio espírito.

Falsas certezas

As falsas certezas surgem quando recorrermos a esquemas intelectuais que dependem de categorias com contornos (ilusoriamente) nítidos (e.g. na atualidade, muçulmanos, direita, esquerda, etc.).

Ocorrem também como produto tóxico de modelos intelectuais que operam com base em conceitos ideais, que não admitem desvios sob pena de falência das conclusões, e onde se supõe que todas as variáveis relevantes são conhecidas. Ou seja, quando tratamos a realidade como um jogo de casino, cujos elementos variáveis são integralmente conhecidos, possibilitando cálculo probabilístico preciso.

Na sua essência, o problema das falsas certezas relaciona-se com a tendência para desvalorizar a nossa própria ignorância sobre o presente (e, por maioria de razão, sobre o passado[1] e o futuro também). Tendemos a sobrevalorizar a informação que temos, desvalorizando a sua incompletude (quantos dados relevantes desconhecemos) e as suas deficiências (qual o real valor, por exemplo, da imensidão de informação estatística e empírica que vai sendo compilada).

Na realidade, melhor seria se partíssemos do pressuposto que certas questões humanas podem ser discutidas e alguns (apenas alguns, porque o fator “desconhecido” é demasiado poderoso para que se possa supor uma antevisão fechada do elenco de cenários possíveis) resultados possíveis contemplados, mas que cálculos válidos e projeções precisas sobre um futuro que não seja quase inutilmente próximo são impossíveis.

1) Analisar categorias utilizadas e verificar que esbatimento das fronteiras poderia destruir a teoria

2) Analisar que regras estamos a pressupor como fixas que, afinal, podem comportar exceções que anulem a validade das conclusões

Falsa confirmação

A falsa confirmação é possível quando o nosso compromisso ideológico, emocional, cultural, tribal ou religioso é de tal modo forte que nos força a selecionar a informação que confirma a nossa ideia (e mais genericamente a nossa mundividência) e a que descredibiliza as evidências que potencialmente a refutariam (e.g. mediante ataques ad hominem contra os opositores ou questionando os interesses subjacentes à posição oposta).

Opera mediante a construção de uma narrativa causal que, quase por definição, será incompleta no que concerne a diversos fatores relevantes, de cuja existência não nos apercebemos sequer ou que tentamos desvalorizar das mais diversas formas, já que se colocam em oposição ao nosso próprio posicionamento.

Este problema assenta em duas fraquezas do nosso entendimento.

Primeiro, a tendência a considerar que, no domínio humano (i.e. fora das ciências exatas ou físicas) um número elevado de dados ou de informação permite estabelecer regras generalizadas. Ora, na maior parte dos casos, embora a consistência estatística permita algumas conclusões, o estabelecimento de regras não é possível, já que um único evento isolado pode alterar o curso dos eventos (paradoxo da galinha, alimentada durante mil dias pelo agricultor e que um dia se aproxima alegremente para comer e é degolada).

O segundo alicerce da falsa confirmação é a tendência para o conservadorismo. Existe em nós (e por bons motivos) uma resistência inata à mudança, que, com frequência, torna mais confortável a persistência no erro do que a adaptabilidade.

1) Formular uma conclusão e, em simultâneo, a pergunta cuja resposta positiva ou negativa (conforme formulação linguística da mesma) refutaria a conclusão – procurando a refutação em vez da confirmação tornará mais fácil a aproximação ao conhecimento sólido

2) Procurar a verdade na negativa, isto é, partindo de uma posição de humildade epistemológica, buscar a verdade por aproximação – e.g. a conclusão de que “nem todos os pássaros voam e caminham” é, mesmo na ausência de informação, mais segura do que a de que “os pássaros ou voam e caminham ou apenas caminham”, já que existe pelo menos uma outra possibilidade (mesmo para aqueles que nunca tenham conhecido o pinguim), nomeadamente a de pássaros que possam eventualmente caminhar e nadar.

[1] Na história há demasiadas variáveis relevantes para o desenrolar dos acontecimentos que naturalmente desconsideramos e informação de igual relevância que desconhecemos. Nesse sentido, a humildade é recomendável, já que é frequente ignorar até o que ignoramos. Estas lacunas no nosso conhecimento conferem à análise histórica uma dimensão de incerteza análoga à que corrói a previsão do futuro, onde abunda o desconhecido (equivalente à informação que ignoramos acerca do passado) e os desconhecidos desconhecidos (na mesma linha das variáveis relevantes do passado a que nem sequer prestámos atenção).

Dupla nacionalidade: debate em França

Ainda sobre a dupla nacionalidade e o terrorismo, artigo informativo no Le Monde.

Is this the sort of book you would want in the hands of your servants?

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